Thursday, February 08, 2007

 

Chuvas de janeiro

O filho vira para mãe e diz: que coisa mais chata ficar em casa nas férias, sem ter o que fazer, sem alternativa. Isso é um tédio. A mãe muito tranqüila e trazendo no rosto as rugas que o destino já lhes dera respondeu: meu filho, procure ler um livro, organize seu álbum de fotografias ou me ajude nos afazeres da casa. E ele respondeu: está ficando louca? Separar fotografias, enxugar louças isso não é coisa para homem. A mãe indagou: O que é coisa de homem? Ficar preso na internet e se tornar dependente do Orkut, virando a noite atrás de um computador? Ou sair para o shopping, trocando o dia pela noite?
A mãe tem razão. Pobre geração do “veio”. Pobre geração virtual que não sabe o que é andar de carrinho de rolimã e brincar de bonecas, soltar pipas, brincar de pique bandeira, de pular cordas. Ai que saudades da olimpíada colegial dos anos 70, de tentar furar o bloqueio do juizado de menores nos cinemas da cidade.
Pobre geração que é educada para o consumismo. Garotada acuada que nem pode mais andar pelas ruas com tênis novo, pois corre risco de ser roubado e voltar para casa descalço, uma vez que o consumismo está também na periferia. Pobre elite que compra o melhor celular para adquirir status. Pobres meninos e meninas que não ouviram as histórias de seus avós, que não tiveram professores e professoras que educavam sem medo da violência. Pobres professores que hoje sentem nas salas de aula o resultado do caos social e da degradação familiar.
Mas nem tudo está perdido. Há homens e mulheres de boa vontade que lutam através de suas Ongs, ou de projetos governamentais sérios, visando mudar esse quadro. Queremos acreditar que o Brasil é um país de todos e não no velho ditado que o sol nasce para todos e a sombra para alguns.



Cosme Ricardo Gomes Nogueira
Diretor-Presidente do Sinserpu-JF

 

Somos reféns do próprio medo


O que é o medo? Segundo o dicionário Aurélio, medo é sentimento de grande inquietação ante a noção de perigo real ou imaginário.
Temos medo de tudo: medo da violência que nos faz ficar acuados em nossas casas, enquanto os bandidos andam soltos pelas ruas; medo até de saber quem realmente são os bandidos neste país; medo de ser mais um na estatística do desemprego e da política ameaçadora da maioria dos empresários, que a todo o momento fazem chantagem com governo, sindicatos e sociedade, com a velha frase “se pressionarmos vamos fechar as portas”. E por aí vai.
Temos também medo da aposentadoria, pois inativo no Brasil é sinônimo de abandono, tendo em vista a política perversa que é imposta para os trabalhadores brasileiros que se aposentam. Eles não conseguem nenhuma garantia que os assegure a tranqüilidade. Os reajustes concedidos aos aposentados são vergonhosos, justamente no momento em que mais necessitam de apoio, pois quando estamos nessa faixa etária da vida tudo fica mais difícil: a saúde já não é a mesma e as oportunidades praticamente não existem. Isso, sem falar na balela do discurso de que não pode conceder reajuste digno aos aposentados, porque vai falir a Previdência. Conversa fiada. O que faz falir a Previdência é a impunidade dos atos administrativos criminosos que foram e são cometidos contra a instituição.
Além dessa situação, há a crueldade com os servidores públicos: aumentaram o tempo de serviço e ainda estabeleceram índice salarial para desconto da contribuição após aposentadoria. No serviço público também reina o medo de manifestar o posicionamento político, diante de possíveis represálias, perseguições e assédio moral que volta e meia são cometidos contra os trabalhadores.
Temos, ainda, medo da medida do novo pacote do Governo federal que propõe tirar dinheiro do FGTS para investir em iniciativa privada, como fizeram com a Previdência no passado. Pois, é dinheiro saindo do bolso do trabalhador para os cofres das grandes empresas e em troca os trabalhadores nada recebem.
Temos medo de ficarmos doente, porque quem não tem plano de saúde e depende do SUS está ferrado. Até mesmo aqueles que têm plano de saúde têm medo, medo de no momento de mais necessidade o valor pago não corresponder às expectativas. Nessa hora, concluímos que pagamos para ter acesso a um SUS melhorado.
Ainda temos medo de recebermos o próprio pagamento, pois o valor nunca dá para pagarmos as contas no final do mês.
Só não tenho medo de escrever meus artigos. Só não tenho medo de acreditar que no futuro poderemos viver numa sociedade mais justa, que os nossos filhos poderão ter dignidade, a dignidade que eles tentam nos tirar a cada dia.

Cosme Ricardo Gomes Nogueira
Diretor-Presidente do Sinserpu-JF

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